Entrevista com coautora de “Libras para Bebês” explica como a Libras contribui para o desenvolvimento infantil e a comunicação na primeira infância
No livro “Libras para Bebês: 50 sinais para começar a conversar”, as autoras Nailma Paixão, Juliane O. Heyn e Elisaine Batista apresentam a Libras como um caminho para a comunicação na primeira infância, tema aprofundado nesta entrevista com uma das coautoras.

A comunicação na primeira infância vai muito além da fala. Para a pedagoga, intérprete de Libras e especialista em neuroeducação Nailma Paixão, introduzir a Língua Brasileira de Sinais desde os primeiros meses de vida pode transformar não apenas o desenvolvimento da criança, mas também a relação com a família.
Coautora do livro “Libras para Bebês: 50 sinais para começar a conversar”, ela compartilha, em entrevista, experiências, aprendizados e reflexões sobre o impacto da Libras no desenvolvimento infantil, um tema que ainda enfrenta desconhecimento e muitos mitos.
Da vivência à vocação: o início na educação de surdos
A trajetória de Nailma na área começou ainda na adolescência, aos 16 anos, quando teve seu primeiro contato com a Libras em um contexto religioso. O que inicialmente era um envolvimento afetivo evoluiu para uma escolha profissional consciente.
Segundo ela, esse momento foi determinante para a construção de sua identidade na área da educação inclusiva:
“Percebi que não era só algo que eu gostava. Era uma vocação. Eu sentia que precisava contribuir de forma mais estruturada com a comunidade surda”, relembra.
A decisão de transformar esse interesse em profissão marcou o início de uma jornada que, ao longo dos anos, se consolidou na formação acadêmica e na atuação prática.
“Esse passo mudou totalmente minha vida e definiu quem eu sou como profissional até hoje.”
O cérebro do bebê e a linguagem visual
Com formação em Pedagogia e especialização em Libras e Neurociência, Nailma explica que a comunicação por sinais está diretamente alinhada ao funcionamento cerebral na primeira infância, fase em que o aprendizado ocorre de forma intensamente sensorial.
De acordo com a especialista, o cérebro do bebê responde de maneira mais eficiente a estímulos visuais e corporais do que à linguagem verbal:
“O cérebro do bebê é extremamente responsivo ao visual, ao movimento e à expressão facial. A Libras utiliza exatamente essas vias naturais”, explica.
Ela destaca que esse tipo de estímulo promove uma ativação cerebral ampla e integrada:
“São ativadas áreas motoras, visuais, linguísticas e emocionais ao mesmo tempo. Isso cria um estímulo muito rico para o desenvolvimento.”
Esse processo contribui para o desenvolvimento cognitivo, motor e emocional, tornando a Libras uma ferramenta potente desde os primeiros meses de vida.
Comunicação antes da fala: menos frustração, mais vínculo
Um dos principais impactos observados com o uso da Libras na primeira infância está na redução das frustrações típicas da fase pré-verbal. Antes mesmo de desenvolver a fala, o bebê já pode expressar necessidades básicas por meio de sinais.
Na prática, isso altera significativamente a dinâmica familiar, tornando a comunicação mais clara e eficiente:
“A Libras dá ao bebê a possibilidade de se expressar antes de falar. Isso muda completamente a dinâmica familiar”, afirma.
Ao conseguir comunicar desejos e desconfortos, o bebê passa a interagir com mais segurança:
“Quando o bebê consegue dizer ‘água’, ‘mais’ ou ‘dor’, você reduz choros, crises e insegurança. Ele se sente compreendido.”
Como consequência, há um fortalecimento direto do vínculo entre a criança e os cuidadores:
“A comunicação precoce cria uma relação mais tranquila, mais segura e muito mais conectada.”
Libras para todos os bebês, não apenas surdos
Outro ponto importante destacado por Nailma é a necessidade de ampliar a compreensão sobre o uso da Libras. Ainda existe a ideia equivocada de que a língua de sinais deve ser utilizada apenas por pessoas surdas.
No entanto, a especialista reforça que seus benefícios são amplos e aplicáveis a diferentes perfis de crianças:
“A Libras não é exclusiva. Ela é uma ferramenta de comunicação que pode beneficiar qualquer bebê”, reforça.
Ela também chama atenção para um dos mitos mais recorrentes entre famílias e educadores:
“A ideia de que a Libras atrasa a fala não tem fundamento. Pelo contrário, ela ajuda a organizar a linguagem e pode até favorecer o desenvolvimento da fala.”
Para bebês ouvintes, a Libras atua como um suporte importante no processo de aquisição da linguagem:
“Ela organiza o pensamento, amplia o vocabulário e facilita a transição para a linguagem oral.”
O livro como “passaporte para a comunicação”

A criação do livro “Libras para Bebês: 50 sinais para começar a conversar” surgiu a partir de uma demanda real observada no cotidiano de famílias e instituições de ensino.
Segundo Nailma, a falta de materiais acessíveis dificultava a introdução da Libras na rotina com bebês:
“Muitos pais querem usar Libras, mas não sabem por onde começar. Faltam materiais acessíveis, claros e pensados para a primeira infância.”
Diante desse cenário, a proposta da obra foi desenvolver um recurso prático e funcional, capaz de facilitar o início da comunicação:
“A gente pensou em um verdadeiro ‘passaporte para a comunicação’. Um material que qualquer pessoa pudesse abrir e já começar a usar.”
A seleção dos sinais seguiu um critério essencial: a aplicabilidade no cotidiano.
“Priorizamos sinais funcionais, que fazem parte da rotina do bebê. Aqueles que realmente resolvem situações do dia a dia.”
Inclusão, diversidade e pertencimento
Além da proposta pedagógica, o livro também foi construído com um olhar atento à representatividade. A obra buscou contemplar diferentes perfis de crianças, ampliando o sentimento de pertencimento.
Esse cuidado aparece na composição dos personagens e nas escolhas visuais do material:
“Fizemos questão de incluir diversidade em todos os aspectos: tons de pele, tipos de cabelo, corpos e também diferentes deficiências”, destaca.
Para a autora, esse aspecto é fundamental no processo de formação infantil:
“Queríamos que todas as crianças se vissem no livro, se reconhecessem e sentissem que pertencem.”
O papel da família na introdução da Libras
A família exerce um papel central na construção da comunicação na primeira infância. É no cotidiano que a linguagem se desenvolve, por meio de interações simples e repetidas.
Por isso, Nailma orienta que o processo de introdução da Libras seja natural e integrado à rotina:
“Não é sobre dar aula. É sobre viver a Libras no dia a dia.”
Ela recomenda começar com poucos sinais e priorizar situações do cotidiano:
“Dois ou três sinais já são suficientes no início. O mais importante é que eles façam parte da rotina, como ‘comer’, ‘água’ e ‘dormir’.”
Além disso, reforça a importância do respeito ao tempo da criança:
“O bebê aprende pela repetição e pelo afeto. Ele observa, compreende e, no tempo dele, começa a sinalizar.”
Muito além da linguagem: formação de crianças mais inclusivas
O impacto da Libras não se limita ao desenvolvimento individual da criança. Segundo Nailma, o contato com diferentes formas de comunicação contribui para a formação de indivíduos mais sensíveis e conscientes da diversidade.
Esse aprendizado acontece desde cedo, de forma natural:
“Quando uma criança cresce em contato com a Libras, ela aprende desde cedo que existem diferentes formas de comunicação”.
Como resultado, desenvolve habilidades sociais importantes:
“Ela se torna mais empática, mais respeitosa e mais aberta à diversidade.”
O futuro da Libras no Brasil
Apesar dos avanços na área da inclusão, ainda existem desafios importantes para a ampliação do uso da Libras na primeira infância. A falta de informação e de formação adequada ainda limita o acesso de muitas famílias e educadores.
Nailma destaca que esse cenário precisa ser enfrentado com ações estruturais:
“Muitas famílias e educadores ainda não sabem que podem usar Libras com bebês. E isso limita o acesso.”
Para ela, o avanço depende de investimento em políticas públicas, formação profissional e conscientização social:
“Precisamos ampliar o acesso, investir em formação e romper mitos. A Libras precisa estar presente desde a primeira infância.”
Libras na primeira infância: comunicação, vínculo e inclusão desde os primeiros anos
Ao longo da entrevista, fica evidente que a Libras não é apenas uma alternativa de comunicação, mas uma ferramenta potente para o desenvolvimento integral da criança,fortalecendo vínculos, ampliando a aprendizagem e favorecendo a inclusão desde os primeiros anos.
Nesse contexto, o livro “Libras para Bebês: 50 sinais para começar a conversar” , de Nailma Paixão, Juliane O. Heyn e Elisaine Batista surge como um recurso acessível para famílias e educadores que desejam iniciar esse processo de forma prática e segura.
A obra reúne 50 sinais organizados a partir da rotina do bebê, como alimentação, sono e necessidades básicas, e conta com QR Codes que direcionam para vídeos demonstrativos, facilitando o aprendizado no dia a dia.
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“A Libras não é só uma língua. É uma forma de aproximar, de acolher e de transformar a forma como a criança se relaciona com o mundo”, conclui Nailma.
