Acadêmica da Uníntese pesquisa acessibilidade comunicacional e destaca desafios da comunidade surda nos serviços de saúde
Pesquisa desenvolvida por Enilda Toledo dos Santos aponta que a falta de profissionais capacitados em Libras e de recursos de acessibilidade comunicacional ainda compromete o atendimento às pessoas surdas na rede pública de saúde.
Garantir que um paciente compreenda seu diagnóstico, participe das decisões sobre o próprio tratamento e consiga expressar seus sintomas é um dos princípios fundamentais da assistência em saúde. Entretanto, quando a comunicação não acontece de forma acessível, esse direito pode ser comprometido. Foi justamente essa realidade que motivou a acadêmica Enilda Toledo dos Santos, do curso de Licenciatura em Letras – Língua Portuguesa e Libras da Faculdade Uníntese, a desenvolver uma pesquisa sobre a acessibilidade comunicacional das pessoas surdas nos serviços de saúde.
Orientado pela Prof.ª Rosane Aparecida Stieler e pelo Prof. Wilton Dourado Teixeira, o estudo resultou no artigo científico “A língua que fala ao coração: Inclusão e acessibilidade ao alcance de todos“, publicado na revista Research, Society and Development. A pesquisa analisou a realidade do município de Chã Preta, em Alagoas, buscando compreender de que forma as barreiras comunicacionais interferem no atendimento à população surda e quais estratégias podem contribuir para uma assistência mais inclusiva e humanizada
Embora o estudo tenha sido desenvolvido em um município específico, as reflexões apresentadas dialogam com uma realidade encontrada em diversas regiões do país. Afinal, mesmo com avanços legais que reconhecem a Língua Brasileira de Sinais (Libras) como meio oficial de comunicação e asseguram o direito à acessibilidade, ainda são observadas dificuldades relacionadas à formação dos profissionais de saúde, à disponibilidade de intérpretes e à implementação de políticas públicas voltadas à inclusão
Mais do que identificar desafios, a pesquisa busca ampliar o debate sobre a humanização do atendimento e demonstrar que a comunicação também faz parte do cuidado.
Quando uma experiência pessoal se transforma em pesquisa científica
Nem toda pesquisa nasce dentro de um laboratório ou a partir de uma revisão bibliográfica. Em muitos casos, ela começa com uma experiência capaz de despertar inquietações e levantar perguntas que ainda não possuem respostas. Com Enilda Toledo não foi diferente
A escolha do tema surgiu durante uma consulta médica, pouco tempo depois de sua mudança para a cidade de Chã Preta. Enquanto conversava com a profissional responsável pelo atendimento, contou que trabalhava como professora de Libras e intérprete voluntária. A médica, inicialmente, associou seu trabalho ao Braille. Após compreender que se tratava da Língua Brasileira de Sinais, comentou que também atendia pacientes surdos.
Curiosa para entender como essa comunicação acontecia, Enilda fez uma pergunta simples, mas que acabaria mudando o rumo de sua trajetória acadêmica.
“Ela me disse que atendia pacientes surdos. Eu perguntei como ela se comunicava. Ela respondeu que colocava a pessoa surda no centro da sala e todos tentavam, por meio de mímicas e gestos, adivinhar o que ela queria dizer.”
A resposta chamou sua atenção. Entretanto, foi a sequência da conversa que despertou a necessidade de investigar aquela realidade.
A pesquisadora passou a imaginar situações mais complexas, como a comunicação de um diagnóstico delicado, a explicação de um tratamento ou a necessidade de orientar um paciente sobre procedimentos médicos.
Foi então que fez um novo questionamento.
“Perguntei: ‘E se houver um diagnóstico importante? Uma informação mais complexa? Como garantir que a comunicação foi compreendida corretamente?’. Ela respondeu: ‘Deus nos ajude!’. Naquele momento, percebi a necessidade de investigar essa realidade e compreender como acontece a acessibilidade comunicacional das pessoas surdas nos serviços de saúde.”
A partir daquela experiência, uma inquietação pessoal transformou-se em um problema de pesquisa.
A comunicação como direito e como cuidado
A escolha do tema não aconteceu apenas pela relevância acadêmica. Ela também está diretamente relacionada ao direito das pessoas surdas de compreender e participar ativamente das decisões sobre sua própria saúde.
No Brasil, a Libras foi reconhecida oficialmente pela Lei nº 10.436/2002, posteriormente regulamentada pelo Decreto nº 5.626/2005. Além disso, a Lei Brasileira de Inclusão reforça que a acessibilidade constitui um direito fundamental das pessoas com deficiência. Apesar desse conjunto de garantias legais, a pesquisa demonstra que a efetivação desses direitos ainda encontra obstáculos na rotina dos serviços de saúde.
Segundo o estudo, a comunicação acessível não representa apenas um recurso complementar. Ela influencia diretamente a qualidade do atendimento, a segurança do paciente, a compreensão dos diagnósticos e a autonomia durante o tratamento. Quando inexistem profissionais preparados para utilizar a Libras ou recursos que possibilitem essa comunicação, toda a assistência pode ser comprometida.
Foi justamente essa percepção que motivou Enilda a aprofundar seus estudos.
Da experiência individual à investigação científica
Com o problema de pesquisa definido, iniciou-se um processo de investigação que buscou compreender a realidade da acessibilidade comunicacional na saúde de forma ampla.
O estudo foi desenvolvido a partir de uma abordagem qualitativa, combinando revisão bibliográfica, análise da legislação brasileira, investigação documental e entrevistas realizadas com profissionais da saúde do município de Chã Preta. Essa metodologia permitiu relacionar os referenciais teóricos sobre inclusão com situações concretas vivenciadas no cotidiano dos serviços públicos de saúde.
Durante esse processo, a pesquisadora procurou identificar quais eram as principais barreiras enfrentadas pelas pessoas surdas, como os profissionais lidavam com essas situações e quais estratégias poderiam contribuir para tornar o atendimento mais acessível.
A investigação também buscou compreender de que maneira a Libras pode fortalecer o acolhimento, reduzir barreiras comunicacionais e favorecer uma assistência mais humanizada.
Além disso, o estudo procurou demonstrar que a acessibilidade não deve ser compreendida apenas como cumprimento da legislação, mas como um compromisso ético com a dignidade humana e com o direito de todas as pessoas receberem informações claras sobre sua própria saúde.
Os resultados revelam que a comunicação ainda é uma das principais barreiras na saúde
Ao relacionar a literatura científica, a legislação e os dados obtidos durante a pesquisa de campo, um aspecto tornou-se evidente: a maior dificuldade enfrentada pelas pessoas surdas no acesso aos serviços de saúde não está, necessariamente, na oferta do atendimento, mas na possibilidade de se comunicar de forma clara, segura e autônoma.
O estudo identificou que a ausência de profissionais capacitados em Libras e a inexistência de intérpretes fazem com que muitos atendimentos sejam realizados por meio de gestos improvisados, mímicas ou com o auxílio de familiares e acompanhantes. Embora essas estratégias sejam frequentemente utilizadas para tentar solucionar o problema, elas não garantem que as informações sejam compreendidas corretamente nem preservam a autonomia do paciente.
Segundo Enilda, essa realidade não é exclusiva do município pesquisado.
“Embora muitos municípios possam ter uma estrutura talvez melhor, ainda não há profissionais da saúde treinados em Libras para receber, acolher e atender esse público. O cidadão surdo fica impotente nessa situação. O Brasil já avançou muito, os surdos avançaram na luta justa por inclusão, mas estamos apenas no meio do caminho.”
A pesquisadora explica que a inclusão não depende apenas de infraestrutura ou da existência de serviços especializados. Ela também exige que o paciente consiga compreender plenamente o que está sendo informado e tenha condições de participar das decisões relacionadas ao próprio tratamento.
Quando a pesquisa encontrou uma história que deu rosto aos números
Ao longo da investigação, a pesquisa deixou de ser apenas uma análise de dados e encontrou situações concretas que ilustram as consequências da falta de acessibilidade comunicacional.
Durante a entrevista realizada com a então secretária interina de Saúde de Chã Preta, um relato chamou a atenção da pesquisadora.
Segundo a gestora, havia uma paciente surda internada com câncer que não conseguia compreender plenamente seu diagnóstico porque não existia um intérprete disponível para mediar a comunicação.
Para Enilda, aquele momento confirmou, na prática, aquilo que vinha sendo observado durante toda a pesquisa.
“Quando consegui agendar uma entrevista para conhecer a secretária interina da Saúde da cidade de Chã Preta, falei da minha pesquisa sobre inclusão e acessibilidade na saúde, que ainda não existia no município. Ela concordou imediatamente e disse que sempre quis dar alguma contribuição para essa comunidade, que as pessoas surdas precisavam ser entendidas por nós, ouvintes.”
Na sequência da conversa, surgiu um relato que a pesquisadora afirma jamais ter esquecido.
“Ela me disse que havia uma mulher surda hospitalizada com câncer e que não havia quem explicasse a ela o que ela tinha, porque no município não existiam intérpretes. Isso me marcou muito, pois eu conheci essa surda. Ela sabia poucos sinais, mas conseguíamos nos comunicar.”
Situações como essa demonstram que a ausência de acessibilidade comunicacional ultrapassa a dificuldade de comunicação cotidiana. Ela interfere diretamente na autonomia do paciente, na compreensão de diagnósticos, na adesão aos tratamentos e no exercício de direitos fundamentais.
Mais do que identificar problemas, a pesquisa despertou mudanças
Durante o desenvolvimento da pesquisa, Enilda percebeu que o próprio debate sobre inclusão começou a provocar transformações na comunidade.
Segundo ela, falar sobre Libras e acessibilidade fez com que gestores, educadores e moradores passassem a olhar com mais atenção para uma realidade que, até então, era pouco discutida.
“O que me surpreendeu foi ver que o fato de se importar, agir e falar sobre o assunto faz as pessoas prestarem atenção às falas importantes. A cidade começou a comentar que havia uma pessoa que entendia os surdos.”
O reconhecimento do trabalho levou a pesquisadora a ser convidada pela primeira-dama do município para atuar como intérprete durante uma palestra sobre meio ambiente realizada em uma escola municipal.
A atividade proporcionou o primeiro contato de muitos estudantes com a Libras e reforçou a importância da inclusão desde o ambiente escolar.
Segundo Enilda, aquele momento mostrou que pequenas iniciativas podem gerar grandes transformações.
“Foi feito o pedido dessa interpretação para que a comunidade escolar tivesse esse contato. Surpreendentemente, no meio do auditório havia alunos fazendo para mim a datilologia dos seus nomes. Ao terminar o evento, fui cercada por eles, que me disseram conhecer alguém surdo. A coordenação, os diretores e os alunos ficaram sensibilizados com o fato de incluir surdos. As autoridades que vieram da capital elogiaram o incentivo proporcionado pela pesquisa.”
Libras também é cuidado, acolhimento e humanização
Ao longo da pesquisa, Enilda passou a compreender que a Libras representa muito mais do que uma ferramenta de comunicação.
Para ela, trata-se de um instrumento capaz de fortalecer vínculos entre profissionais e pacientes, reduzir inseguranças e promover um atendimento verdadeiramente humanizado.
“O papel da Libras na humanização do atendimento em saúde é promover aproximação, interligação e quebrar barreiras na comunicação. É inclusão natural, acolhimento. É cuidar do paciente em todos os aspectos, sejam físicos, emocionais ou sociais. É acessibilidade na prática.”
Essa compreensão também aparece nas conclusões do artigo científico, que destaca a necessidade de ampliar a formação dos profissionais, fortalecer estratégias de inclusão linguística e desenvolver políticas institucionais voltadas à garantia dos direitos da comunidade surda.
Quais caminhos a pesquisa propõe?
Além de identificar os desafios, o estudo também aponta possibilidades para tornar o atendimento mais inclusivo.
Entre elas estão a oferta permanente de formação em Libras para profissionais da saúde, a presença de intérpretes quando necessário e o fortalecimento da acessibilidade comunicacional como parte das políticas públicas de saúde.
Na avaliação da pesquisadora, essas medidas não devem ser encaradas como diferenciais, mas como parte da formação dos profissionais.
“Aprender Libras deve, sim, fazer parte da formação profissional. No nosso país existem mais de 10 milhões de pessoas com algum grau de surdez, segundo o IBGE. Desses, cerca de um milhão dominam a Libras. Todos têm o direito de serem entendidos, sem que a barreira da língua limite esse atendimento.”
Ela também acredita que o principal desafio ainda está relacionado à mudança de cultura.
“O maior desafio é a resistência dos profissionais e gestores quanto ao uso da Libras na saúde. É preciso investir em treinamento e oferecer cursos de Libras.”
Uma pesquisa que também transformou sua autora
Ao concluir o estudo, Enilda percebeu que a investigação não modificou apenas sua compreensão sobre os desafios enfrentados pela comunidade surda.
Ela também transformou sua própria maneira de compreender o significado da inclusão.
“Antes de iniciar esta pesquisa, eu entendia inclusão principalmente como a presença da pessoa em determinado ambiente. Ao aprofundar meus estudos sobre Libras e acessibilidade na saúde, minha percepção foi transformada. Incluir vai muito além de permitir a participação. É criar condições reais, identificar barreiras, buscar soluções e agir. É um compromisso com a dignidade humana. A verdadeira inclusão não é ocupar um espaço. É um direito.”
A pesquisadora afirma que pretende continuar aprofundando esse tema por meio de novos estudos e projetos de extensão.
“Eu amei fazer essa pesquisa. Quero investir em uma pós-graduação na área de Libras, desenvolver projetos de extensão oferecendo palestras, oficinas e cursos de Libras para profissionais da saúde e dar continuidade à pesquisa em outras UBS, hospitais e comparar os resultados. Gostaria de acompanhar a evolução dessa temática.”
Uma contribuição que ultrapassa a pesquisa
Embora tenha sido desenvolvida a partir da realidade de um município do interior de Alagoas, a pesquisa amplia uma discussão que alcança todo o país.
Ao evidenciar que a comunicação também faz parte do cuidado em saúde, o estudo reforça que a inclusão depende não apenas da existência de leis, mas da implementação de práticas capazes de garantir que todas as pessoas sejam acolhidas, compreendidas e respeitadas.
Para Enilda, esse é o principal legado de seu trabalho.
“A principal contribuição seria fortalecer a compreensão da importância da inclusão e da acessibilidade comunicacional das pessoas surdas nos serviços de saúde, reconhecendo que esse é um compromisso de todos.”
E deixa uma mensagem direcionada aos profissionais e gestores da área da saúde.
“A acessibilidade comunicacional não é um privilégio. É um direito. A pessoa surda possui as mesmas necessidades, urgências e direitos que qualquer outro cidadão. Merece acolhimento, respeito e dignidade. Que essa temática seja vista com os olhos da empatia, da humanidade e do compromisso inclusivo, oferecendo um atendimento digno e verdadeiramente inclusivo.”
Ao aproximar ciência, educação e compromisso social, a pesquisa desenvolvida na Faculdade Uníntese demonstra que a comunicação acessível não beneficia apenas a comunidade surda. Ela fortalece a qualidade da assistência em saúde, amplia a autonomia dos pacientes e contribui para a construção de serviços mais humanos, inclusivos e comprometidos com o direito de todos à informação e ao cuidado.
