Acadêmica Erica Silva Damaceno pesquisa como a Libras pode ampliar a acessibilidade da comunidade surda no universo dos vinhos
Estudo desenvolvido no curso de Letras Libras da Faculdade Uníntese investiga os desafios da comunicação acessível em experiências de enoturismo e aponta caminhos para uma inclusão mais efetiva
A acessibilidade comunicacional ainda representa um dos principais desafios para a participação da comunidade surda em diversos espaços sociais e culturais. Embora avanços tenham sido conquistados ao longo dos últimos anos, experiências ligadas ao universo dos vinhos, como visitas a vinícolas, degustações, cursos e atividades de enoturismo, ainda apresentam barreiras que dificultam o acesso à informação e à vivência completa dessas atividades.
Foi a partir dessa realidade que a acadêmica Erica Silva Damaceno, do curso de Letras Libras – Bacharelado da Faculdade Uníntese, desenvolveu a pesquisa “Libras no Mundo dos Vinhos: Um Estudo Qualitativo”, publicada na revista científica Research, Society and Development (RSD). O estudo foi realizado em coautoria com os professores Adiene Medeiros de Souza e Wilton Dourado Teixeira e buscou compreender como a Língua Brasileira de Sinais (Libras) pode contribuir para tornar o setor vitivinícola mais acessível e inclusivo para a comunidade surda.
Pesquisa une Libras, cultura e inclusão
A escolha do tema foi motivada pela intenção de aproximar duas áreas ainda pouco relacionadas na produção científica: a Libras e o universo dos vinhos. Segundo Erica, a proposta surgiu da curiosidade em compreender como a comunicação acessível está presente ou ausente, nesse contexto.
“A princípio, o que me motivou foi a vontade de unir duas paixões e explorar um campo onde a comunicação, a cultura e o prazer se conectam. Surgiu o desejo de entender melhor esse assunto e, assim, nasceu o tema ‘Libras no Mundo dos Vinhos’, especialmente em relação à acessibilidade e inclusão.”
A acadêmica explica que o interesse foi ampliado à medida que percebeu a escassez de estudos voltados ao tema.
“Fiquei curiosa sobre como as vinícolas e todos os aspectos relacionados lidam com essa questão. A Libras já abre um mundo de inclusão e, quando levamos isso para o universo dos vinhos, encontramos um campo extremamente rico, com uma diversidade perceptual e cultural impressionante.”
Nesse contexto, a pesquisa foi direcionada para compreender como pessoas surdas vivenciam experiências relacionadas ao vinho e quais barreiras ainda limitam sua participação.
A falta de acessibilidade comunicacional foi identificada como a principal barreira
Entre os principais resultados obtidos, foi constatado que o maior obstáculo enfrentado pela comunidade surda não está relacionado ao interesse pelo universo dos vinhos, mas à ausência de comunicação acessível durante essas experiências.
Segundo a pesquisa, a falta de atendimento em Libras, de materiais acessíveis e de profissionais preparados compromete o acesso a informações essenciais sobre características dos vinhos, harmonizações, processos de produção e aspectos culturais presentes nas atividades de enoturismo.
Para Erica, essa realidade acaba produzindo uma forma silenciosa de exclusão.
“Essa barreira gera uma exclusão comunicacional invisível, em que a pessoa está presente fisicamente, mas não consegue compreender plenamente as informações sobre os vinhos, como aromas, harmonizações, processos de produção e experiências sensoriais.”
Além disso, o estudo demonstra que a presença física da pessoa surda em uma atividade não garante, necessariamente, sua participação efetiva. Dessa forma, a acessibilidade comunicacional passa a ser compreendida como um elemento indispensável para que a experiência seja vivida de maneira plena.
Inclusão vai além da presença de intérpretes
Outro aspecto evidenciado pela pesquisa é que a inclusão não depende exclusivamente da atuação de intérpretes de Libras. Embora esse profissional desempenhe um papel fundamental, outras estratégias também precisam ser incorporadas pelos estabelecimentos do setor vitivinícola.
Entre elas estão a produção de materiais visuais acessíveis, conteúdos em Libras, utilização de QR Codes, tecnologias assistivas e capacitação básica das equipes para o atendimento à comunidade surda.
Conforme destaca Erica, a inclusão deve ser pensada de forma ampla.
“Muitas pessoas imaginam que inclusão significa apenas colocar um intérprete em um evento, mas esquecem da experiência fascinante que podemos proporcionar.”
Pesquisa aponta potencial para criação de novos sinais em Libras
Outro resultado relevante identificado durante o estudo foi a possibilidade de ampliar o vocabulário da Libras por meio da criação de sinais específicos relacionados à enologia.
Conceitos como acidez, taninos, corpo e notas aromáticas ainda representam um campo pouco explorado na língua de sinais, abrindo espaço para futuras pesquisas e para a construção coletiva de novos recursos linguísticos.
Segundo Erica, essa possibilidade representa um avanço significativo tanto para a Libras quanto para o próprio setor.
“A possibilidade de criar sinais enológicos em Libras seria fantástica. Pensar em como traduzir acidez, tanino, corpo ou notas aromáticas para uma experiência visual e espacial seria algo bastante inovador. Não apenas adaptar o que já existe, mas criar novas formas de se comunicar e vivenciar o vinho.”
Acessibilidade também fortalece turismo e desenvolvimento
Além dos impactos sociais, a pesquisa evidencia que investir em acessibilidade pode gerar benefícios para o próprio mercado vitivinícola.
Ao ampliar o acesso da comunidade surda às experiências relacionadas ao vinho, vinícolas, restaurantes e empreendimentos turísticos também fortalecem sua imagem institucional, ampliam seu público e promovem ambientes mais acolhedores.
Para Erica, inclusão e desenvolvimento caminham juntos.
“Ao investir em Libras e em recursos acessíveis, vinícolas e estabelecimentos podem conquistar novos clientes, fortalecer a fidelização e melhorar sua imagem no mercado.”
Educação e conscientização são apontadas como caminhos para a inclusão
Como conclusão, a pesquisa reforça que a construção de espaços verdadeiramente acessíveis depende da formação de profissionais e da valorização da cultura surda.
Nesse sentido, a educação foi apontada como elemento central para que a comunicação acessível seja incorporada de maneira permanente às experiências culturais, turísticas e gastronômicas.
Segundo Erica, esse processo beneficia não apenas a comunidade surda, mas toda a sociedade
“A educação e a conscientização são fundamentais para construir experiências mais inclusivas, pois capacitam os profissionais para atender pessoas surdas com qualidade e respeito. Quando há conscientização e entendimento, os espaços se tornam mais receptivos, acessíveis e prontos para assegurar a participação igualitária de todos.”
Ao aproximar Libras e enoturismo, a pesquisa desenvolvida por Erica Silva Damaceno amplia um debate ainda pouco explorado na literatura científica e evidencia que a inclusão começa pela comunicação. Mais do que eliminar barreiras, o estudo demonstra que tornar o universo dos vinhos acessível significa garantir que todas as pessoas possam compreender, participar e vivenciar essas experiências de forma plena.
