Famílias acolhedoras: pesquisa da Uníntese amplia debate sobre vínculos e despedidas

Por | Social Media na Uníntese |


O acolhimento familiar envolve cuidado, convivência e construção de vínculos. Embora temporárias, essas relações podem se tornar profundamente significativas para todos os envolvidos. Por isso, a partida da criança também pode representar um momento delicado para a família que a acolheu.

Essa experiência está no centro do artigo “Família Acolhedora: Percepções sobre a chegada e a partida de crianças acolhidas”. O estudo foi desenvolvido por Cristiane Dourado Stieler, Pedro Stieler e Wilton Dourado Teixeira, pesquisadores vinculados à Faculdade Uníntese. O trabalho foi publicado na Revista Inclusiones – Revista de Humanidades y Ciencias Sociales, em junho de 2026.

A pesquisa analisa como famílias acolhedoras percebem a chegada, a convivência e a partida das crianças. Além disso, investiga os vínculos construídos e os impactos emocionais associados ao desligamento. Para conhecer também os bastidores do estudo, o blog da Faculdade Uníntese conversou com Cristiane Dourado Stieler, autora do artigo.

Uma experiência pessoal que deu origem à pesquisa

O interesse de Cristiane pelo tema surgiu a partir da proximidade com uma família acolhedora. Uma criança chegou à família com poucos dias de vida e permaneceu até os dois anos. Durante esse período, a pesquisadora acompanhou diferentes momentos da infância e também construiu um forte vínculo afetivo.

Quando a criança retornou para a família de origem, a despedida provocou tristeza e despertou novos questionamentos. Foi nesse contexto que Cristiane começou a refletir sobre as experiências vividas por quem acolhe. “Foi a partir dessa experiência que surgiu meu interesse em compreender melhor como as famílias acolhedoras vivenciam todo esse processo”, conta.

A experiência pessoal, portanto, tornou-se o ponto de partida para uma investigação acadêmica mais ampla. A partir dela, os pesquisadores buscaram compreender as percepções de outras famílias com experiência no acolhimento. Assim, sentimentos inicialmente observados de forma próxima passaram a ser analisados a partir de diferentes relatos.

Como a pesquisa sobre famílias acolhedoras foi realizada

O estudo adotou uma abordagem qualitativa, descritiva e exploratória. Os pesquisadores entrevistaram quatro famílias acolhedoras de um município do interior do Rio Grande do Sul. Todas possuíam entre quatro e dez anos de experiência e já haviam participado de diferentes processos de acolhimento.

Durante as entrevistas, as famílias falaram sobre suas motivações para acolher e sobre a chegada das crianças. Também relataram como ocorreu a adaptação à rotina, a construção dos vínculos e o momento da despedida. Depois, os pesquisadores analisaram esses relatos com base em estudos sobre desenvolvimento humano, vínculos afetivos e acolhimento familiar.

Como o estudo ouviu quatro famílias de um contexto regional específico, os resultados não representam todas as experiências de acolhimento no Brasil. Ainda assim, as entrevistas permitem aprofundar aspectos subjetivos e emocionais desse processo. Dessa forma, a pesquisa contribui para tornar visíveis experiências que nem sempre aparecem em análises quantitativas ou administrativas.

A pesquisa também ampliou o olhar de uma das coautoras

Durante a investigação, a própria percepção de Cristiane sobre o acolhimento passou por mudanças. No início, sua atenção estava muito concentrada na dor da família após a partida da criança. Além disso, ela questionava a falta de suporte percebida depois do desligamento.

Com o avanço do estudo, porém, a pesquisadora começou a observar com maior profundidade a experiência da criança acolhida. Sua própria trajetória também contribuiu para essa reflexão, já que Cristiane viveu durante cinco anos em um abrigo. A partir disso, passou a considerar com mais força as possibilidades oferecidas pelo acolhimento familiar.

“Percebi que, através da família acolhedora, essa criança teria a oportunidade de viver uma rotina e uma vida muito mais próximas de uma experiência familiar, saudável e estável do que permanecendo em uma instituição”, relata. Assim, o estudo não coloca a criança e a família acolhedora em lados opostos. Pelo contrário, amplia a compreensão sobre as necessidades de ambos.

Os vínculos são construídos no cotidiano

Um dos aspectos destacados pela pesquisa está na forma como os vínculos se constroem. Muitas vezes, eles surgem em experiências simples, como refeições, brincadeiras e tarefas domésticas. Além disso, idas à escola, consultas e comemorações ajudam a inserir a criança na dinâmica familiar.

Segundo Cristiane, acolher não significa apenas oferecer moradia. As famílias também estabelecem regras, dividem tarefas e passam a conhecer cada criança de forma individual. Ao longo do tempo, essas experiências ajudam a criar segurança, confiança e pertencimento.

“São justamente as coisas mais simples do cotidiano que ajudam a construir esse vínculo”, explica a coautora. Ela também destaca que cada criança chega com uma história própria e necessidades diferentes. Por isso, cada processo exige atenção às particularidades de quem é acolhido.

O caráter temporário do acolhimento, portanto, não impede a formação de vínculos significativos. Ao contrário, o estudo mostra que a convivência cotidiana pode criar relações afetivas importantes. Esses vínculos também ajudam a explicar por que a despedida se torna um momento tão sensível.

A despedida é um dos momentos mais sensíveis

A pesquisa identificou a partida como o momento de maior exigência emocional para as famílias entrevistadas. Isso ocorre mesmo quando todos sabem, desde o início, que o acolhimento será temporário. Durante a convivência, a criança passa a integrar a rotina, as relações e as experiências daquele núcleo familiar.

“A despedida é significativa porque não é simplesmente o encerramento de um serviço. Somos humanos. É o encerramento de uma convivência e de um vínculo afetivo”, afirma Cristiane. Dessa forma, sentir a partida não significa desconhecer o caráter temporário do acolhimento.

Pelo contrário, o artigo indica que a dor pode estar relacionada à força do vínculo construído durante aquele período. Quanto mais significativa foi a convivência, maior pode ser a necessidade de elaborar emocionalmente a despedida. Por isso, o desligamento também merece atenção dentro do processo de acolhimento.

A saída da criança também transforma a rotina da família

Os relatos analisados pelos pesquisadores mencionam saudade, tristeza e sensação de vazio depois da partida. Além da ausência física, a família precisa reorganizar uma rotina construída com a presença da criança. Hábitos, horários e experiências compartilhadas passam novamente por mudanças.

Por isso, o artigo propõe que a partida não seja compreendida apenas como uma etapa administrativa. O desligamento também representa uma transição emocional para quem acolheu. Afinal, o término formal da medida não apaga imediatamente os vínculos e as memórias criadas.

Cristiane destacou essa questão durante a entrevista. “Quando ela vai embora, não é apenas a presença física que desaparece. Toda aquela rotina construída precisa ser reorganizada”, explica. Nesse sentido, reconhecer a história construída também ajuda a compreender os sentimentos presentes no pós-acolhimento.

Pós-acolhimento também precisa fazer parte do cuidado

Um dos principais resultados do estudo está relacionado ao período posterior à saída da criança. Entre as famílias entrevistadas, apareceram relatos de desamparo e de descontinuidade no acompanhamento após o desligamento. Por isso, os pesquisadores chamam atenção para a necessidade de considerar também o pós-acolhimento.

Para Cristiane, o processo precisa ser entendido de forma mais ampla. “O acolhimento precisa ser pensado como um processo completo: preparação, acolhimento, despedida e pós-acolhimento”, afirma. Dessa maneira, o suporte não terminaria automaticamente no momento da partida.

Entretanto, isso não significa que todas as famílias necessitem de acompanhamento psicológico prolongado. Segundo a coautora, algumas sessões ou espaços de escuta já podem contribuir nesse período. Essas iniciativas podem ajudar a família a compreender e elaborar melhor aquilo que viveu.

Ao mesmo tempo, o acompanhamento pode preparar os acolhedores para experiências futuras. Portanto, olhar para o pós-acolhimento também pode contribuir para a continuidade do próprio programa. O estudo destaca que o cuidado com as famílias faz parte de uma rede mais ampla de proteção.

Cuidar de quem acolhe também fortalece o processo

Dar atenção às famílias acolhedoras não reduz a importância da proteção à criança. Pelo contrário, o estudo mostra que essas duas perspectivas podem caminhar juntas. O acolhimento familiar continua tendo como foco o bem-estar e a proteção da criança.

“A pesquisa não questiona a importância do acolhimento familiar. Pelo contrário. Ao longo do estudo, passei a compreender ainda mais a importância desse modelo para a criança”, destaca Cristiane. Ao mesmo tempo, ela ressalta que as necessidades emocionais de quem acolhe também merecem atenção.

Nesse contexto, preparação adequada, acompanhamento durante a convivência e estratégias para a despedida ganham relevância. O suporte posterior também passa a integrar essa discussão. Assim, a pesquisa amplia o olhar sobre todos os momentos que compõem o acolhimento familiar.

O que essa pesquisa pode contribuir para o acolhimento familiar?

O artigo amplia as reflexões sobre aspectos emocionais envolvidos no acolhimento. Muitas pesquisas sobre o tema se concentram em questões legais, administrativas ou estruturais. Neste estudo, porém, as experiências das famílias ocupam o centro da investigação.

Essa abordagem permite discutir como vínculos e despedidas afetam quem assume temporariamente o cuidado de uma criança. Além disso, o trabalho destaca a necessidade de pensar em estratégias para diferentes etapas do processo. Entre elas estão a preparação, a convivência, o desligamento e o período posterior.

Segundo Cristiane, o cuidado com a criança precisa caminhar junto com o cuidado destinado à família acolhedora. Dessa forma, o estudo pode contribuir para novas reflexões sobre práticas de acompanhamento. Também pode estimular discussões entre profissionais e gestores que atuam na área.

Publicação amplia o alcance do debate

O artigo foi publicado na Revista Inclusiones – Revista de Humanidades y Ciencias Sociales, em junho de 2026. A publicação permite que os resultados alcancem outros pesquisadores, profissionais e pessoas interessadas no acolhimento familiar. Além disso, amplia a circulação de um tema que possui relevância social.

Em entrevista ao blog, Cristiane destacou justamente essa possibilidade. “A publicação representa a possibilidade de essa pesquisa ultrapassar o espaço acadêmico e chegar a outras pessoas, ampliando o debate sobre o acolhimento familiar”, afirma.

A investigação começou a partir de uma experiência pessoal. No entanto, as entrevistas revelaram sentimentos semelhantes entre outras famílias, como afeto, preocupação, saudade e dor diante da despedida. Assim, a publicação permite levar essas experiências para uma discussão acadêmica mais ampla.

Ao mesmo tempo, o trabalho reforça a importância da pesquisa sobre temas socialmente relevantes. Por meio de pesquisadores vinculados à Faculdade Uníntese, a produção acadêmica contribui para estimular reflexões e ampliar a circulação do conhecimento. Esse diálogo pode alcançar profissionais, famílias, gestores e diferentes setores da sociedade.

Confira o artigo na íntegra

O artigo “Família Acolhedora: Percepções sobre a chegada e a partida de crianças acolhidas” é de autoria de Cristiane Dourado Stieler, Pedro Stieler e Wilton Dourado Teixeira. Os três pesquisadores estão vinculados à Faculdade Uníntese. O trabalho está disponível na Revista Inclusiones – Revista de Humanidades y Ciencias Sociales.

Ao reunir as experiências das famílias entrevistadas, o estudo amplia a compreensão sobre aquilo que acontece antes, durante e depois da convivência. A proteção da criança continua no centro do acolhimento. Ao mesmo tempo, compreender e apoiar aqueles que acolhem também pode contribuir para fortalecer todo esse processo.

Confira o artigo na íntegra e conheça os resultados da pesquisa.