Dia Nacional do Livro: Filipe Macedo fala sobre literatura infantil, Libras e inclusão
Escritor e contador de histórias, conhecido como O Passarinho, compartilha experiências que marcaram sua trajetória e fala sobre a importância de diferentes infâncias estarem representadas nos livros.
Aos 11 anos, Filipe Macedo escolheu o livro mais curto que encontrou entre as opções levadas por sua professora à sala de aula. Tinha poucas palavras, algumas ilustrações e uma história que ele não imaginava que mudaria sua relação com a leitura. Anos depois, aquela criança que descobriu o prazer de ler se tornou escritor, professor e contador de histórias.
Hoje conhecido como O Passarinho, Filipe dedica seu trabalho à literatura infantojuvenil, com obras inspiradas em experiências da infância e que abordam temas como convivência, sentimentos, diversidade e inclusão.
Neste 29 de outubro, Dia Nacional do Livro, a Faculdade Uníntese conversou com o escritor sobre sua trajetória, as histórias que deram origem aos seus livros e a importância da literatura para aproximar as crianças da Língua Brasileira de Sinais (Libras) e de diferentes realidades.
Filipe é professor e pesquisador das infâncias, especialista em Arte de Contar Histórias pela Casa Tombada (SP), com estudos em Audiovisual e Artes Dramáticas. Pessoa com deficiência auditiva, atua na difusão da Libras desde 2006.
Entre suas obras estão Pedra, Adeus, prô!, Meu reino por um troninho, A Pedra da Sabedoria, Quando as mãos podem falar e Família da Libras.
Inspirado pelo poeta Manoel de Barros, ele gosta de se definir como “um caçador de achadouros da infância”. É nesse olhar atento às pequenas experiências do cotidiano que encontra boa parte das histórias que escreve.
Uma professora, um livro e o começo de tudo
O primeiro encontro marcante de Filipe com a literatura aconteceu na escola. A professora levou dezenas de livros para que os alunos escolhessem o que gostariam de ler. Sem saber muito bem por onde começar, ele optou pelo que parecia mais fácil.
Uníntese — Como a literatura entrou na sua vida? Em que momento você percebeu que também queria contar suas próprias histórias por meio dos livros?
Filipe Macedo: Minha trajetória com a literatura começou aos onze anos, quando minha professora predileta trouxe para a sala de aula dezenas de livros para que cada aluno escolhesse o seu. Como não queria decepcioná-la, fui rápido e escolhi o livro mais curto, com ilustrações e pouco texto. A obra é “O Dinossauro que fazia au-au”, do grande Pedro Bandeira. Não sabia, até então, que iria me apaixonar por esse livro. Com a história do Galileu, comecei a me encontrar como leitor. Se não fosse essa professora colorida, talvez hoje não fosse escritor, nem tivesse minha vida transformada. Por isso, quero fazer o mesmo através dos meus livros, prestando atenção naqueles que ainda não tiveram voz e nas histórias que não foram contadas.
A leitura foi apenas uma das linguagens que passaram a fazer parte da vida de Filipe. Sua formação artística e a experiência como professor também influenciaram a maneira como ele constrói suas narrativas.
Uníntese — Sua trajetória passa pela arte, pelo teatro e pela educação. Como essas experiências influenciam seu trabalho como escritor?
Filipe Macedo: Sou professor e artista, e essas duas frentes transformam meu olhar para o mundo todos os dias. A delicadeza da vida é percebida pela arte. Se não fossem o teatro, a música e a poesia, eu não seria muita coisa. Acredito que o mais bonito das pessoas, o que nos diferencia uns dos outros, é a bagagem que a gente carrega, e eu sei que comigo trago muita gente linda.
Da vida real para as páginas dos livros
As histórias de Filipe não surgem apenas da imaginação. Muitas personagens e situações têm origem em experiências que ele acompanhou durante seu trabalho como educador social.
A infância, com suas descobertas, dificuldades e relações, é o ponto de partida de sua escrita. São situações que acontecem dentro de casa, na escola ou no convívio com outras pessoas e que, muitas vezes, passam despercebidas pelos adultos.
Uníntese — Você já escreveu sobre diferentes experiências da infância. Pode nos apresentar um pouco dos seus livros e contar o que os leitores vão encontrar nessas histórias?
Filipe Macedo: O território da minha escrita sempre foi a infância. Eu gosto de contar histórias que acontecem nesse período: os desafios que a gente encontra na escola, em casa, em família. Em todos os meus livros, algumas personagens e situações eu trago das minhas experiências como educador social. A maioria sempre tem algo que aconteceu de verdade com alguém, e todos os dias eu estou por aí, atento aos detalhes e buscando mais histórias para contar.
Em títulos como Pedra, Adeus, prô!, Meu reino por um troninho e A Pedra da Sabedoria, o autor explora diferentes experiências da infância.
Ao escolher os temas de suas obras, porém, Filipe também pensa em quem fará essas histórias chegarem às crianças. Afinal, antes de um livro chegar às mãos de um pequeno leitor, muitas vezes ele precisa passar pela escolha de um adulto.
Uníntese — O que te inspira na escolha dos temas abordados em seus livros?
Filipe Macedo: A própria infância, a inclusão e a importância de trazer diferentes contextos para a conversa com os leitores. Dificilmente uma criança vai escolher um livro por conta própria em uma livraria. Precisamos entrar em contato primeiro com a criança crescida que mora dentro desse adulto que tem a possibilidade de escolher um livro para as crianças. Então, as temáticas e a abordagem das minhas obras também passam por essa preocupação. Temos gerações que não tiveram acesso aos livros (inclusive a minha), e o que faltou lá atrás eu tento trazer hoje nas minhas obras.
Uma história que encontrou outra no Piauí
Entre as experiências que Filipe guarda de seu trabalho com a literatura, uma aconteceu durante uma formação de professores na cidade de Barras, no Piauí.
Na ocasião, uma educadora compartilhou com ele as dificuldades enfrentadas por uma aluna surda. A conversa levou o escritor a falar sobre Quando as mãos podem falar, obra desenvolvida em parceria com a artista baiana Amma.
O que ele descobriu em seguida tornou aquele encontro especialmente marcante.
Uníntese — Ao compartilhar suas histórias com as crianças, houve alguma reação ou experiência que te marcou especialmente?
Filipe Macedo: Muitas, destaco inclusive uma menina surda que eu encontrei na cidade de Barras, no Piauí. Em uma formação que fui cumprir com os professores do município, uma das educadoras conversou comigo sobre os desafios com sua aluna surda. Eu comentei sobre a minha obra “Quando as mãos podem falar”, parceria com a artista baiana Amma. Enquanto contava sobre o livro, perguntei o nome da aluna e, para a minha surpresa, ela tem o mesmo nome da minha personagem, Tauane, uma menina que também foi minha aluna. Foi o encontro de histórias em diferentes regiões, em outros contextos, mas conectadas pelo livro. Foi mágico ver onde a gente pode chegar, sem saber, com a literatura.
A coincidência entre os nomes das duas meninas, em contextos tão diferentes, tornou-se mais uma experiência que Filipe leva consigo. Uma história inspirada em uma antiga aluna havia encontrado uma conexão inesperada com a realidade de outra criança.
Quando a Libras também faz parte da literatura infantil
A presença da Libras na literatura é uma das preocupações do escritor. Em obras como Quando as mãos podem falar e na coleção Família da Libras, Filipe procura apresentar às crianças a língua de sinais e dar visibilidade às experiências da comunidade surda.
Seu objetivo é que esses livros cheguem tanto às crianças surdas quanto às ouvintes, ampliando as possibilidades de contato com a Libras desde a infância.
Uníntese — Como surgiu a ideia de desenvolver obras voltadas à Libras, como Quando as mãos podem falar e a coleção Família da Libras?
Filipe Macedo: A proposta desses livros é trazer o universo da Libras em evidência, buscando ampliar o olhar da sociedade majoritariamente ouvinte para as questões da comunidade surda. Todos os livros buscam trazer o surdo em destaque, buscando, com poesia, beleza e muita fluidez, obras que sejam acessíveis para todos. Somos quase 11 milhões de pessoas surdas ou com deficiência auditiva no Brasil. Precisamos entender que inclusão só se faz quando é para todo mundo. Acredito que minhas obras possam contribuir um dia para que as crianças percebam a importância de referenciar a Libras, nossa segunda língua oficial e ampliar a inclusão que pode começar já na escola.
E quando uma criança não se encontra nas histórias?
A representatividade também aparece entre os assuntos discutidos pelo escritor. Para Filipe, a literatura precisa abrir espaço para experiências que, durante muito tempo, ficaram de fora das narrativas destinadas à infância.
No caso das crianças surdas, encontrar personagens que compartilham sua língua ou suas vivências pode ser uma oportunidade de identificação. Para as crianças ouvintes, essas mesmas histórias podem apresentar outras formas de comunicação e experiências que nem sempre fazem parte de seu cotidiano.
Uníntese — Qual é a importância de uma criança surda encontrar sua língua e sua realidade representadas nos livros? E o que essas histórias podem ensinar às crianças ouvintes?
Filipe Macedo: Acredito que toda história merece ser contada. Todas as infâncias deveriam caber nos livros e, durante muitos anos, a literatura silenciou a existência de muitas pessoas que hoje podemos trazer representadas nas obras. É uma alegria poder chegar para as crianças que não escutam ou que se interessam pela Libras, buscando também despertar, em todas as infâncias, com muita leveza e qualidade obras onde a premissa seja a inclusão, como disse acima, para todos!
O que os professores podem aprender com a literatura inclusiva?
Como professor e formador de educadores, Filipe também leva suas experiências com os livros para a sala de aula.
Quando o assunto é trabalhar a diversidade com as crianças, sua orientação não começa por uma atividade complexa ou por uma metodologia específica. Começa pelo brincar e pela forma como os próprios adultos se relacionam com a leitura.
Uníntese — Como os professores podem utilizar a literatura infantil para trabalhar a inclusão e a diversidade em sala de aula?
Filipe Macedo: Brincando! O que eu digo para todas as professoras e professores que participam das minhas formações é exatamente essa máxima: brinquem muito com as crianças, deixem a história ser divertida primeiro para a criança que mora dentro desse adulto. Com certeza, os alunos vão receber assim também. A criança já nasceu inclusiva; a gente é que dificulta um pouco o caminho. O melhor e mais importante é transformar o nosso olhar primeiro, e eu acredito que o caminho para isso acontece de dentro para fora.
A necessidade de ampliar o olhar dos adultos também aparece quando Filipe fala sobre os desafios para que a Libras e a cultura surda estejam mais presentes nos livros infantis.
Uníntese — Na sua experiência como escritor e educador, o que ainda falta para que a Libras e a cultura surda estejam mais presentes na literatura infantil?
Filipe Macedo: O adulto acreditar, investir, apostar que a inclusão é a única forma de transformar a escola em um lugar melhor para todos! Quando voltarmos nosso olhar para a inclusão de que a gente precisa, esses contextos tão desiguais vão mudar. Eu acredito e trabalho para isso todos os dias.
Dia Nacional do Livro: “O livro também pode ser brinquedo”
O incentivo à leitura, a presença de diferentes histórias e a participação dos adultos são questões que atravessam a trajetória de Filipe.
Da professora que lhe apresentou O Dinossauro que fazia au-au às experiências que hoje leva para seus livros, o escritor reconhece a importância de quem aproxima as crianças da literatura.
Para ele, não é preciso esperar uma ocasião especial para abrir um livro. A leitura pode fazer parte das brincadeiras, das conversas e dos momentos mais simples do dia.
Uníntese — Neste Dia Nacional do Livro, que mensagem você gostaria de deixar para professores, famílias e leitores sobre a importância da literatura na formação das crianças?
Filipe Macedo: O livro também pode ser brinquedo. O trabalho de nós, escritores, muitas vezes é pensar nas palavras, tirar poeira delas, ajeitar, brincar, propor. Mas o livro, quando está na estante, é apenas um monte de papel bonito. Agora, quando a gente tem um mediador que sabe desse poder do “brincar” com a leitura, um novo mundo pode se abrir em uma tarde chuvosa, antes de dormir, em um dia especial… O livro cabe em todos os momentos, em diferentes formatos, e ele pode garantir uma forma mais bonita de enxergar o outro, conhecer mundos novos e, por que não, também falar sobre o que mora dentro da gente. Eu acredito que tem sempre uma história esperando por você, basta você abrir.
Histórias para todas as infâncias
A entrevista com Filipe Macedo começou com a lembrança de um menino que escolheu um livro por ter poucas palavras. Terminou com a reflexão de um escritor que, hoje, procura fazer suas histórias chegarem a crianças com diferentes experiências e formas de se comunicar.
Entre esses dois momentos estão a professora que o incentivou, os encontros vividos como educador e as pessoas que inspiraram seus personagens.
No Dia Nacional do Livro, sua trajetória também chama a atenção para a importância de pensar não apenas no hábito de ler, mas nas histórias que chegam às mãos das crianças.
Para a Faculdade Uníntese, que atua na formação de profissionais da educação e da área de Libras, compartilhar essa conversa é uma oportunidade de ampliar o debate sobre literatura infantil, representatividade e inclusão.
Afinal, quando mais crianças conseguem encontrar suas experiências nas páginas de um livro, mais histórias passam a fazer parte dessa conversa.
